quarta-feira, 20 de junho de 2018

Preciso estar deitada
debaixo de um céu muito negro
para que meu corpo vire instrumento
de uma linguagem que eu sequer entendo,
mas através da qual eu preciso me transformar.

De olhos fechados, entregue,
Deslizo a caneta no papel.
Não olho pra cima, tenho medo.
Espero. Respiro.
Não demora muito e logo vem a ânsia:
Deitada no chão, quero cuspir fora
A minha natureza humana.
E, como que telepaticamente, um mistério se revela:
não sou pessoa, sou uma força.

Sem destino, sem tempo, sem história
quero que tudo aqui se dissolva,
E que, no escuro, dentre os mosquitos,
Sapos e grilos,
Eu mesma me transforme
Apenas em instinto.

Debaixo da luz da lua, meu corpo não é mais meu:
sou o nada,
sou o todo.

Não sobram planos, vontades,
Não sobra futuro nem passado, 
Não sobra sequer pessoa.

Quero apenas ser o pó,
Não ter nenhum domínio,
Ser regida pelo desconhecido
O mecanismo secreto
Dos luares e ventos,
Das marés e sonhos

Flutuar por milênios,
Em águas calmas e silenciosas,
Memória ancestral dos tempos
Em que, antes de qualquer coisa,
Não havia corpo,
Não havia forma,
Não havia nome,
Não havia coisa alguma,
Tudo era

Apenas

Potência.



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