Zé Grilo era servente de pedreiro. Morava com a mãe, que morreu há três ou quatro anos. Nasceu prematuro e seguiu miúdo durante todos os seus 36 anos de vida. Sua mãe, enquanto viva, cuidou dele até quando pôde. Servia comida, lavava a roupa, arrumava o quartinho, fazia café com leite de manhã e separava a roupa para ele vestir. Zé sustentava a casa com seu salário de servente e a mãe cuidava da lida, até que ela foi ficando velha e doente. Zé então passou a dar comida, lavar as roupas, servir o café com leite para sua mãezinha que não parava de ir embora. Até que um dia se foi.
Zé seguiu a vida, muito sozinho. Vendeu as galinhas, não tinha tempo de cuidar. Era um homem quieto, passava despercebido na vizinhança, no trabalho e também em sua própria casa. Trabalhava bem, fazia todos os esforços, embora fosse tão franzino. Pegava o ônibus das seis e meia da manhã, usando o boné revestido de crochê que sua mãe lhe fizera. As unhas bem curtas, a barba de mais ou menos um mês. Zé olhava o céu azul pela janela do ônibus, o novo trânsito da cidade, os outdoors. Não prestava muita atenção às pessoas e às conversas. Gostava dos prédios e carros. Estava com 36, lembrava todos os dias. E a rotina eterna e interminável de ir pra obra e voltar pra casa. Nunca tinha pensado muito, mas no ônibus, de repente, percebera que era sozinho. Sujo, calejado, mirrado. Pouco homem. Sozinho. E estava ficando velho.
Os homens no trabalho, debochados e depravados, brincavam e intimavam Zé Grilo a se interessar por mulher, por qualquer uma que passasse. Conhecia bem todas as piadas chulas dos colegas e até sabia esboçar sorrisos verdadeiros de graça; mas a urgência sexual não lhe afligia. Não se sentia tão macho. Os homens da obra costumam se eriçar com qualquer mulher, fazendo dezenas de pequenos alvoroços diários com a passagem de cada uma delas na calçada. Mas Zé Grilo frequentemente deixava de ouvir, fugia mentalmente, às vezes se sentia envergonhado. Porque havia a babá das crianças da casa 33. A zombaria dos colegas com a moça pequenina que passava de mãos dadas com as duas crianças ruivas e o rabo-de-cavalo balançando, o perturbava, o revoltava. Baixava os olhos, não queria fazer parte, nem ser confundido com um deles. Não por ela. Ela, que inspirava nele a fantasia de tê-la como mãe de seus filhos. Carinhosa e doce, de cabelos limpos, que ria bonitas gargalhadas infantis, que usava tênis brancos. Imaginava o cheiro do seu pescoço. Perto da obra, ela atravessava a rua, evitava a deseducação dos homens, entrava na padaria com as crianças. Saíam depois com um saco de pão e os pirulitos nas mãos, todos os dias. Talvez tivesse uns 16. Mas Zé Grilo não costumava se estender muito nas fantasias. Sacudia a cabeça, esvaziava a mente e voltava a trabalhar. Com o fim do expediente, pegava o ônibus das sete, sempre lotado. De pé, espremido, lembrava de novo, por acaso, que estava com 36. Sacudia a cabeça mais uma vez.
Os homens no trabalho, debochados e depravados, brincavam e intimavam Zé Grilo a se interessar por mulher, por qualquer uma que passasse. Conhecia bem todas as piadas chulas dos colegas e até sabia esboçar sorrisos verdadeiros de graça; mas a urgência sexual não lhe afligia. Não se sentia tão macho. Os homens da obra costumam se eriçar com qualquer mulher, fazendo dezenas de pequenos alvoroços diários com a passagem de cada uma delas na calçada. Mas Zé Grilo frequentemente deixava de ouvir, fugia mentalmente, às vezes se sentia envergonhado. Porque havia a babá das crianças da casa 33. A zombaria dos colegas com a moça pequenina que passava de mãos dadas com as duas crianças ruivas e o rabo-de-cavalo balançando, o perturbava, o revoltava. Baixava os olhos, não queria fazer parte, nem ser confundido com um deles. Não por ela. Ela, que inspirava nele a fantasia de tê-la como mãe de seus filhos. Carinhosa e doce, de cabelos limpos, que ria bonitas gargalhadas infantis, que usava tênis brancos. Imaginava o cheiro do seu pescoço. Perto da obra, ela atravessava a rua, evitava a deseducação dos homens, entrava na padaria com as crianças. Saíam depois com um saco de pão e os pirulitos nas mãos, todos os dias. Talvez tivesse uns 16. Mas Zé Grilo não costumava se estender muito nas fantasias. Sacudia a cabeça, esvaziava a mente e voltava a trabalhar. Com o fim do expediente, pegava o ônibus das sete, sempre lotado. De pé, espremido, lembrava de novo, por acaso, que estava com 36. Sacudia a cabeça mais uma vez.
[2012]
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